PROJETO CONEXÕES VALE DO RIBEIRA


Projeto leva grupo ao Vale do Ribeira para conhecer a vida das comunidades quilombolas 
Entre os dias 22 e 24 de julho de 2012 um grupo de 15 pessoas visitou a região do Médio Ribeira, no Vale do Ribeira (SP). A ideia era participar da vida das comunidades quilombolas de Ivaporunduva, Sapatú e André Lopes, integrantes do recém-lançado Circuito Quilombola (veja aqui o site do circuito e a página do facebook. Isso quer dizer desfrutar das belezas e atrativos da Mata Atlântica e conhecer a história dessas comunidades, sua cultura, seus costumes, os aspectos socioeconômicos e principais desafios enfrentados pela região. A equipe que organiza o projeto é formada pelo Circuito Quilombola, Núcleo Oikos, Instituto Socioambiental, Tory- Viaje na Sustentabilidade e Instituto EcoSocial.



      Durante o tempo em que participaram da imersão, os visitantes, de diferentes origens, idades e instituições, foram constantemente "provocados" a pensar em como poderiam se envolver com aquele território, por meio de uma metodologia de facilitação que combinava momentos de interação e troca com as comunidades e outros agentes de desenvolvimento local, com espaços de diálogo e reflexão mais voltados ao próprio grupo.
      Os participantes vieram de São Paulo e chegaram ao Vale no fim da tarde do dia 20 de julho, um domingo. Hospedaram-se na pousada comunitária de Ivaporunduva e no primeiro jantar, experimentaram itens da gastronomia tradicional dos quilombos. Aliás, todas as refeições tinham no cardápio pratos da culinária tradicional das comunidades. Na noite da chegada, foram saudados pelos quilombolas com uma roda de viola ao redor de uma fogueira na pousada.
Visita às plantações e ao "tráfico de farinha"
    Nos dias que se seguiram, os participantes puderam conhecer uma das várias plantações de banana orgânica de Ivaporunduva e refletir sobre muitos aspectos ligados ao desenvolvimento da região: a importância do Rio Ribeira de Iguape, a perspectiva dos quilombos sobre os projetos de construção de barragens – uma ameaça para a maioria deles -, a influência das atividades agrícolas e econômicas praticadas na cabeceira e nas margens sobre a qualidade da água, a relação histórica de harmonia dos quilombolas com a floresta e a preocupação constante com a sustentabilidade suas atividades produtivas, entre outros.

   Em visita à igreja de Ivaporunduva, com mais de 300 anos de existência, o líder Benedito Alves da Silva, o Ditão, que acompanhou o grupo, falou sobre a religiosidade e a educação da comunidade e respondeu francamente às diversas perguntas que surgiram entre os visitantes. O grupo visitou também o "tráfico de farinha", local onde a mandioca é processada para fazer farinha e ali foram recebidos por dona Dita, sempre muito alegre com sua risada contagiante. Foram momentos especiais nos quais os participantes arrancavam a mandioca da terra e rodavam para ralar a mandioca e comer a farinha quentinha, feita na hora no forno de barro. Alguns estavam vendo e participando pela primeira vez, de todo o processo de produção artesanal da farinha, que faz parte da cultura não só dos quilombos, mas de todos os brasileiros.

   O grupo entrou em contato direto com a Mata Atlântica da região, ao fazer uma trilha até a cachoeira chamada Queda do Meu Deus. Os obstáculos do caminho, entretanto, não impediram que o grupo se ajudasse para que todos pudessem chegar ao pé da cachoeira.


   A experiência foi única e nenhuma imagem é capaz de transmitir a sensação do grupo. Dali, partiram para visitar o centro comunitário da comunidade de Sapatú, onde foram recebidos com o mais típico café tradicional quilombola. Experimentaram café com garapa e comeram vários tipos de alimentos feitos a base de mandioca, banana etc. Conheceram os objetos artesanais feitos de palha de bananeira e para encerrar a visita, a comunidade apresentou a dança tradicional da Nhá Maruca.

   A luta pela posse da terra e a Caverna do Diabo
  O grupo também assistiu, em Ivaporunduva, a uma apresentação do grupo musical Batucajé integrando pela música viajantes e quilombolas. As letras das músicas entoadas mencionavam diversos itens experimentados por todos durante os dias de visita.
    A visita ao quilombo de André Lopes foi exemplar. Os organizadores da imersão aproveitaram a oportunidade para expor aos participantes um dos principais desafios enfrentados pelas comunidades quilombolas de todo o Brasil: a falta do título de posse de suas terras. Isso já havia sido mencionado por muitos quilombolas nos dias anteriores e é o principal elemento da luta política quilombola. O exemplo foi a visitar o Parque Estadual da Caverna do Diabo, ponto turístico que vem sendo visitado desde os anos 1960 e fica dentro do quilombo de André Lopes. Ali existe uma disputa de mais de 40 anos entre o governo estadual e a comunidade, que reivindica a posse de algumas partes do território que passou a fazer parte do parque desde que ele foi criado, sobrepondo-se a um território de uma comunidade tradicional.
   Ao mesmo tempo que conheceu as belezas da caverna, o grupo participou de uma roda de conversa com o gestor do parque e as principais lideranças de André Lopes. Em um clima amigável ficou evidente a complexidade desse tipo de disputa, que se reproduz em muitas outras localidades do Brasil em que são criadas unidades de conservação sobrepostas a territórios de comunidades tradicionais, tendo então de se estabelecer um relacionamento com os moradores.
  O almoço foi na casa de uma família do quilombo de André Lopes e os visitantes foram apresentados aos aos principais produtos da roça quilombola. Na mini-feira montada pela comunidade os participantes puderam comprar os produtos. Assistiram também a uma demonstração da "tutuca de pilão", para aprender como se faz para pilar o arroz (tirar a casca) que as comunidades plantam nos morros da região, e que é bem diferente do industrializado.
    O encerramento da imersão foi na escola do quilombo, a Escola Estadual Maria Antonia Chules Princesa, nome de antiga liderança feminina de André Lopes. A escola representa uma conquista histórica das comunidades daquela região do Vale do Ribeira, que antes de sua criação tinham de mandar suas crianças e adolescentes para estudar na cidade de Eldorado. Sem auxílio efetivo do poder público para transportá-los até a cidade, os estudantes acabavam perdendo muitos dias de aula, repetindo de ano ou abandonando a escola.
   Certamente ainda há muito a ser feito na escola em relação ao conteúdo ensinado e do relacionamento da instituição com as comunidades quilombolas. Mas encerrar a imersão na escola foi muito significativo para o projeto Conexões Vale do Ribeira já que as atividades realizadas nesse período de três dias envolvendo os visitantes, os organizadores e as comunidades foram um exercício de aprendizado, entre todos e com o Vale do Ribeira.













                                                                                   FONTE E FOTOS: 
                                                                           http://www.socioambiental.org/



REPRODUZIDO NESSE BLOG POR NILTON F DA SILVA COM AUTORIZAÇÃO - 
02/08/2012


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